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Reler-te a ti mesmo

Ha um momento estranho que acontece logo depois de terminares de escrever algo que nao planeavas escrever. Poisas a caneta, ou o cursor para de piscar a meio de uma frase, e voltas a ler o que acabou de saltar de ti. Por um segundo, nao reconheces. Nao porque seja falso, mas porque e mais preciso do que esperavas de ti mesmo. Nao sabias que pensavas isso. Nao sabias que estavas tao zangado, ou tao cansado, ou tao esperancoso. A pagina sabia antes de ti.

A maior parte do que dizemos em voz alta ja foi ensaiada. Sabemos mais ou menos o que pensamos antes de abrir a boca, porque falar acontece em tempo real, diante de alguem, e nao ha espaco para te descobrires a meio de uma frase sem que isso se torne estranho. Escrever nao tem nenhuma audiencia a observar o teu rosto enquanto percebes as coisas. Essa ausencia e o que permite que a frase mais verdadeira chegue - aquela que te surpreende tanto quanto poderia surpreender quem a le.

A carta como um espelho que responde

Os antigos diaristas escreviam cartas as estrelas, ou aos mortos, ou a ninguem em particular, e os investigadores notaram mais tarde algo estranho nessas cartas: quem as escrevia nao estava realmente a relatar factos ao destinatario pretendido. Estavam a realizar o ato de serem testemunhados, usando uma audiencia principalmente para dar aos proprios pensamentos um lugar onde aterrar. O destinatario quase nao importava. O que importava era a forma que a frase assumia depois de ter de ser dirigida a alguem.

Talvez seja por isso que reler a propria carta pode parecer encontrar uma versao ligeiramente mais honesta de ti mesmo. Nao exatamente um desconhecido. Alguem que esteve na sala contigo todo o tempo mas que so falou quando lhe deste uma pagina e deixaste de esperar pela resposta. Quando lemos o que escrevemos para nos mesmos, conseguimos notar a pessoa que eramos no ato de tentar ser ouvidos - antes de comecarmos a gerir a impressao, antes de suavizarmos as arestas para o conforto de outra pessoa.

Achamos que vale a pena proteger isto. Nem todo pensamento precisa ser enviado, defendido ou resolvido. Alguns precisam apenas de uma pagina disposta a mante-los quietos o tempo suficiente para veres a tua propria letra e pensares: ah, era isto que eu queria dizer.