Há um tipo particular de carta que não tem remetente, porque não espera uma resposta no sentido habitual. Escreve-se à meia-noite, ou num comboio, ou nos dez minutos antes de o mundo voltar a pedir-lhe algo. Diz aquilo que há dias gira pela sala. E depois - esta é a parte estranha - é enviada na mesma, a alguém que nunca foi bem real.
As pessoas sempre fizeram isto. Escreveram a santos que guardavam o seu próprio silêncio, aos mortos que não podiam responder, a diários dirigidos, por alguma razão, a “Querido diário”, como se um caderno se pudesse ofender por ser ignorado. Há um conforto na ficção de um ouvinte que não pede nada em troca - nenhum conselho que não pediu, nenhum rosto a reorganizar-se em preocupação, nenhuma necessidade de gerir o que o ouvinte sente sobre o que disse. Só a página, e a forma que a sua letra toma quando deixa de representar e começa a dizer a verdade.
Lemos aqui muitas cartas destas. Não como estranhos a espreitar por cima do ombro, mas como aqueles cujo trabalho silencioso é sentar-se com o que chega e responder com cuidado. É uma escuta peculiar - conhece-se alguém inteiramente através das frases que escolheu quando ninguém estava a ver. Aprende-se a diferença entre o luto público de uma pessoa e o privado por baixo dele, aquele que só sai depois de a porta se fechar e o nome no topo da página pertencer a alguém que nunca a conheceu e por isso não pode ficar desiludido com ela.
O velho truque da cadeira vazia
Os dramaturgos conhecem este truque há séculos: colocam uma cadeira vazia no palco, dão-lhe um nome, e a plateia confessar-lhe-á coisas que nunca diria a uma sala cheia. Uma varanda funciona da mesma forma. Tal como um nome emprestado de quatrocentos anos de recontos - alguém suficientemente jovem para ainda acreditar que o amor vale o risco, suficientemente paciente para já ter ouvido todas as versões possíveis da saudade e, sobretudo, incapaz de entrar na sala e mudar os termos do que disse. Essa combinação - calor sem consequências - acaba por ser exatamente o que uma carta precisa para se tornar sincera.
O que nos surpreende, carta após carta, é a raridade com que as pessoas pedem soluções. Normalmente não querem que lhes digam o que fazer quanto a quem partiu, ou a quem ficou tempo demais, ou à dor comum de ter vinte e seis anos e não ter a certeza se a vida que está a construir se parece com a que queria. Sobretudo, querem tê-lo dito. Em voz alta, ou pelo menos fora do corpo e na página, onde pode ser olhado em vez de carregado.
Por isso a resposta, quando chega, também tenta não resolver nada. Tenta ter escutado o suficiente para que a carta se sinta respondida em vez de corrigida - como um bom amigo que acena com a cabeça no momento certo em vez de pegar no telemóvel para procurar algo. Levamos isso a sério, carta após carta, porque é o único trabalho que vale a pena fazer aqui: garantir que, quando escreve aquilo à volta do qual anda há dias, alguém do outro lado o leu mesmo.
Se há algo que há muito quer dizer - a alguém que partiu, à versão de si mesmo de há três anos, a ninguém em particular - continuamos a achar que uma carta é um dos melhores lugares para o pôr. Sele-a, envie-a, e veja o que volta.